
A opinião é do historiador português Filipe Ribeiro de Menezes, autor da primeira biografia académica do político português António Oliveira Salazar - "Salazar - A Political Biography", lançado em Washington no final da semana passada.

"Uma guerra, mesmo de defesa de território nacional, vinha baralhar as contas de Salazar: a defesa de Angola significava reforçar o papel do Exército na vida do país, alterando o equilíbrio político que Salazar se esforçava por manter entre as várias facções que constituíam o Estado Novo", referiu, em entrevista à Agência Lusa.
É a esta luz que deve ser entendido, no entender de Filipe de Menezes, a "falta de preparação no terreno" para o levantamento coordenado pela UPA (União dos Povos de Angola) em 1961 "apesar de muitos avisos feitos pela PIDE, pelo Exército e até por países amigos".
"Mais uma vez, aqui, o desejo de não alterar o equilíbrio politico reinante em Portugal sobrepôs-se a uma necessidade premente - a de preservar as vidas e bens dos colonos no norte de Angola. Do ponto de vista do Estado Novo, e dos seus interesses, foi este o maior fracasso de Salazar", defendeu.
Para o historiador, Salazar nunca entendeu, simultaneamente, "o porquê" da alteração da atitude das outras potências coloniais relativamente às suas próprias possessões ultramarinas - "se houve alguma hesitação quanto à defesa das colónias, deu-se no início de 1961", admitiu.
A manutenção do controle sobre as províncias ultramarinas acabaria por se tornar, na opinião de Ribeiro de Menezes, "essencial para a sobrevivência do Estado Novo", embora nunca tenha sido "a preocupação principal de Salazar", "cujas atenções até então se tinham concentrado quase sempre na metrópole".
"A guerra colonial não foi uma ´guerra total´; não se lhe atribuíram todos os recursos da nação. Não se sobrepôs, por outras palavras, ao desenvolvimento da economia portuguesa. E Salazar nunca confiou inteiramente nos desígnios da população europeia das colónias", considerou.
Entre as ex-colónias portuguesas, Angola era "a jóia da coroa" - "sem Angola o império não fazia sentido", acentuou o Historiador.
"Quantas biografias foram já escritas sobre Churchill, ou Mussolini? Nenhum biógrafo deve ousar afirmar que disse a última palavra sobre o objecto dos seus estudos, acentuou.
A história - considerou o biógrafo de Salazar - lembrará o antigo presidente do Conselho como "um homem munido de um projecto irrealizável - o de controlar o ritmo do progresso de um país de forma a não se perder o que ele próprio julgava ser a ´essência´ do povo português - um povo que ele admirava e desprezava simultaneamente".
"As falsas premissas em que assentava este projecto levaram Salazar a remar contra a maré durante décadas; conseguiu fazê-lo até ao seu fim politico, em 1968, mas deixou um cálice envenenado ao seu sucessor", concluiu.







