 O diário pertence ao judeu Zalman Gradovski, que fazia parte de um "sonderkommando", equipa constituída por prisioneiros jovens e saudáveis que cremavam os restantes reclusos, conseguindo assim retardar o seu próprio extermínio.
Entre Dezembro de 1942 e Outubro de 1944, Gradovski tinha por tarefa limpar as câmaras de gás dos cadáveres, atirá-los para os fornos e limpar a cinza. O envenenamento dos prisioneiros era prerrogativa dos oficiais e soldados nazis.
“Querido leitor, nestas linhas encontrarás a expressão dos sofrimentos e desgraças que nós, filhos infelizes deste mundo, sofremos durante a nossa 'vida' neste inferno terrestre, chamado Auschwitz. Penso que o mundo já conhece bem este nome, mas ninguém saberá o que exactamente se passou aqui”, escreve Gradovski.
Segundo o autor, “trata-se de um lugar criado pelo poder de bandidos para exterminar o nosso povo e, parcialmente, outros”.
O diário é dedicado à sua esposa e mãe, duas irmãs, genro e sogro, todos assassinados nesse campo de concentração a 08 de Dezembro de 1942.
No capítulo “Caminho para a morte”, Gradovski transcreve as palavras dirigidas por uma das mulheres judias que iam ser cremadas a uma oficial nazi: “'Besta! Também vieste apreciar a nossa desgraça. Lembra-te disto! Tu também tens família, não terás muito tempo para te deliciar com os filhos. Serás despedaçada viva e o teu filho, tal como o meu, não viverá muito tempo. Lembra-te, pagarás por tudo, todo o mundo se irá vingar!' Ela cuspiu-lhe na cara e fugiu para a câmara com o filho. Os SS ficaram petrificados, sem fala, sem coragem de olharem nos olhos uns dos outros: eles ouviram a verdade grande, terrível, que lhes roía, cortava, queimava as almas animalescas..
Gradovski participou e foi abatido a tiro numa revolta de prisioneiros, deixando para a posteridade as últimas palavras: “Que o futuro nos dite a sentença com base nas minhas notas e que o mundo veja nelas uma gota, o mínimo da terrível e trágica luz da morte que nós vimos.”
O diário, escrito em hebraico, foi encontrado encontrado entre as cinzas do campo de concentração de Auschwitz pelos soldados soviéticos que nele entraram em 1945 e conservou-se até hoje no Museu de Medicina Militar de São Petersburgo.
O senador russo Vladimir Slutzker considerou, numa conferência dedicada ao 65º aniversário da libertação dos presos de Auschwitz, que “No Centro do Inferno” é o “documento central da catástrofe”, defendendo a sua tradução para outras línguas.
José Milhazes, da Agência Lusa
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